1. Contexto da epidemia de dengue: um desafio crescente para a saúde pública global
A dengue é uma doença viral aguda transmitida por mosquitos, causada pelo vírus da dengue (DENV), que se tornou a arbovirose de disseminação mais rápida em todo o mundo, representando uma ameaça substancial à segurança da saúde pública. Nas últimas duas décadas, a incidência global de dengue aumentou drasticamente, com o número de casos notificados dobrando anualmente desde 2021 [1]. Em dezembro de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência global de dengue para fortalecer os esforços coordenados de resposta internacional. Estimativas epidemiológicas da OMS indicam que aproximadamente 3,9 bilhões de pessoas em todo o mundo estão em risco de infecção por dengue, com cerca de 390 milhões de infecções ocorrendo anualmente — das quais 96 milhões se apresentam como casos clinicamente aparentes [1,2].
2. Destaques Epidemiológicos
As características epidemiológicas da dengue são moldadas pela interação de fatores virológicos, ecologia do vetor, respostas imunes do hospedeiro e condições socioambientais. Uma compreensão abrangente dessas características é essencial para o desenvolvimento de estratégias eficazes de prevenção e controle, bem como abordagens diagnósticas precisas.
2.1 Vetores de transmissão e padrões de transmissão urbana
O vírus da dengue é transmitido principalmente porAedes aegypti e Aedes albopictusmosquitos. Dentre essas espécies vetoras, o Aedes aegypti é reconhecido como o vetor de transmissão mais crítico, caracterizado por alta “adaptabilidade humana” e ampla distribuição em ambientes urbanos tropicais e subtropicais. Diferentemente de outros mosquitos vetores de patógenos arbovirais, o Aedes aegypti apresenta as seguintes características epidemiológicas principais:
-Preferência por reprodução em ambientes antropogênicos (ex.: recipientes para armazenamento de água, pneus descartados)
-Um forte tropismo pelo sangue humano como fonte de nutrientes.
-Comportamento alimentar diurno
Essas características definem a dengue como uma doença típica.“doença infecciosa urbana”com eficiência de transmissão significativamente elevada em áreas densamente povoadas. Estudos relacionados à OMS demonstraram que em ambientes urbanos de alta densidade, o aumento da frequência de contato mosquito-humano pode elevar substancialmente o número básico de reprodução (R₀) do DENV, acelerando assim a disseminação de epidemias [2].
2.2 Tendências de disseminação global e fatores determinantes
De acordo com relatórios da OMS, o número global de casos de dengue notificados aumentou exponencialmente nas últimas duas décadas [1,3]. Essa tendência de alta é impulsionada principalmente pelos seguintes fatores interconectados:
(1) Mudanças Climáticas: O aumento das temperaturas globais não só expande a área geográfica de habitats adequados para os mosquitos vetores, como também reduz o período de incubação extrínseca do vírus da dengue (DENV) no hospedeiro mosquito, aumentando assim a eficiência da transmissão. As variações na densidade de mosquitos induzidas pelo clima foram validadas pela OMS como um preditor confiável da dinâmica espaço-temporal dos surtos de dengue.
(2) Urbanização: A expansão urbana rápida e não planejada criou habitats de reprodução abundantes para vetores de mosquitos, enquanto o aumento da densidade populacional fortaleceu a continuidade das cadeias de transmissão do DENV.
(3) Movimento Populacional Global: As viagens e o comércio internacionais facilitaram a rápida transmissão transfronteiriça do DENV, promovendo a transição de casos importados para transmissão local sustentada. Os dados de vigilância da OMS mostram que, entre 2010 e 2021, os Estados Unidos relataram 7.528 casos de dengue associados a viagens, dos quais 3.135 necessitaram de hospitalização e 19 resultaram em óbito.
(4) Expansão da Distribuição Vetorial: Globalmente, a distribuição geográfica de Aedes aegypti e Aedes albopictus continua a expandir-se, com os mosquitos Aedes a estabelecerem-se cada vez mais em partes da Europa. Consequentemente, a dengue evoluiu de uma epidemia tradicionalmente regional para uma ameaça global à saúde pública.
2.3 Cocirculação de múltiplos sorotipos e mecanismos de reinfecção
O vírus da dengue compreende quatro sorotipos antigenicamente distintos (DENV-1 a DENV-4). A infecção por um sorotipo confere imunidade protetora de longo prazo contra esse sorotipo específico, mas apenas proteção cruzada temporária e parcial contra os outros três sorotipos. A população em geral é universalmente suscetível ao DENV, com apenas uma parcela dos indivíduos infectados desenvolvendo doença clínica [2].
Em regiões endêmicas, múltiplos sorotipos do DENV frequentemente cocirculam simultaneamente, resultando no potencial de indivíduos apresentarem múltiplas infecções por dengue ao longo de suas vidas. Estudos epidemiológicos da OMS identificaram a cocirculação de múltiplos sorotipos como um fator chave para surtos periódicos de dengue [1].
2.4 Infecção Secundária e Potencialização Dependente de Anticorpos
Um fenômeno crítico e singular na epidemiologia da dengue éaumento dependente de anticorpos (ADE)Durante a infecção secundária com um sorotipo heterólogo do DENV, os anticorpos não neutralizantes produzidos durante a infecção primária facilitam a entrada viral em monócitos e macrófagos, aumentando assim a replicação viral. Este mecanismo é amplamente reconhecido pela OMS como um importante fator patogênico na dengue grave, incluindo a dengue hemorrágica e a síndrome do choque da dengue [1].
Os dados epidemiológicos da OMS demonstram consistentemente que os indivíduos com infecção secundária por dengue apresentam um risco significativamente maior de desenvolver doença grave em comparação com aqueles com infecção primária — uma característica de grande importância para a vigilância da doença e o manejo clínico. É importante notar que, embora o risco de doença grave seja elevado durante a infecção secundária, a infecção por qualquer sorotipo do vírus da dengue pode potencialmente progredir para dengue grave [1].
2.5 Manifestações Clínicas Não Específicas e Risco de Diagnóstico Errado
As manifestações clínicas da dengue são notavelmente inespecíficas, particularmente nos estágios iniciais da doença, muitas vezes sobrepondo-se às de outras infecções virais transmitidas por mosquitos (por exemplo, vírus chikungunya e Zika), bem como a certas infecções respiratórias. As estimativas da OMS indicam que 40-80% das infecções por DENV são assintomáticas [3].
As manifestações clínicas típicas incluem:
-Febre aguda (que persiste por 2 a 7 dias e pode ser bifásica)
-Dor de cabeça intensa e dor retro-orbital (dor atrás dos olhos)
-Dor muscular e articular (comumente chamada de "febre quebra-ossos")
-Erupção macular ou maculopapular
-Manifestações hemorrágicas leves (ex.: equimose, epistaxe, sangramento gengival)
A dengue sintomática é tipicamente dividida em três fases distintas: a fase febril, a fase crítica e a fase de recuperação. Aproximadamente menos de 5% dos pacientes sintomáticos progridem para dengue grave. Devido à falta de características clínicas específicas, o diagnóstico baseado apenas em sintomas clínicos é desafiador, o que aumenta o risco de diagnóstico incorreto e subdiagnóstico. A OMS enfatiza explicitamente que o diagnóstico clínico isolado é insuficiente para garantir a precisão, tornando a confirmação laboratorial indispensável [1].
3 pontos-chave da OMS “Testes laboratoriais para o vírus da dengue: orientações provisórias, abril de 2025”
Em abril de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma atualização das diretrizes provisórias sobre testes laboratoriais para o vírus da dengue (DENV), fornecendo orientações técnicas confiáveis para o diagnóstico global da dengue. Essas diretrizes sintetizam as evidências mais recentes sobre testes laboratoriais para dengue no contexto da atual emergência global da doença e oferecem recomendações práticas adaptadas a diferentes níveis de recursos.

3.1 Princípios Fundamentais da Estratégia de Teste
A orientação enfatiza que o diagnóstico da dengue deve adotar uma estratégia de teste combinada com múltiplos marcadores, baseada no estágio da doença [1]. Dada a ausência de um algoritmo diagnóstico universal, as estratégias de teste devem ser adaptadas aos contextos epidemiológicos locais, levando em consideração os seguintes fatores-chave [1]:
- Estágio da infecção: O número de dias após o início dos sintomas determina o método de teste mais apropriado.
- Tipo de amostra: Adequação de sangue total, plasma ou soro para detecção do vírus da dengue (DENV)
-Epidemiologia regional: Os sorotipos de DENV em circulação local e a cocirculação de outros arbovírus.
-Risco de coinfecção: Em regiões com circulação sobreposta de arbovírus, deve-se considerar a realização de testes multiplex para distinguir entre diferentes patógenos.
3.2 Estratégia de Teste Baseada em Estágios
De acordo com as orientações da OMS, os testes laboratoriais para dengue devem seguir janelas de tempo claras com base no estágio da doença [1,2]:
(1) Testes da Fase Aguda (≤7 dias após o início)
-Testes de ácido nucleico (testes moleculares): A reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa (RT-PCR) e outros métodos moleculares detectam o RNA do DENV com alta sensibilidade.
-Teste de antígeno: Detecção do antígeno NS1, que se torna detectável entre 1 e 3 dias após o início dos sintomas.
Durante a fase aguda, os níveis de viremia são relativamente altos, e os testes de ácido nucleico e antígeno atingem a sensibilidade ideal.
(2) Testes na fase de convalescença (≥4 dias após o início)
-Testes sorológicos: Os anticorpos IgM normalmente tornam-se detectáveis por volta do 4º dia após o início dos sintomas.
-Na maioria dos casos, os anticorpos IgM persistem por 14 a 20 dias e, em alguns casos, a persistência pode se estender por até 90 dias.
O teste de IgG tem valor limitado para o diagnóstico da dengue aguda devido à possibilidade de anticorpos com reação cruzada provenientes de infecção prévia por flavivírus ou vacinação.

(3) Algoritmo de diagnóstico de casos suspeitos
As diretrizes incluem um algoritmo diagnóstico para casos suspeitos de dengue, recomendando métodos de teste apropriados com base nos dias após o início dos sintomas: o teste de antígeno NS1 e o teste de ácido nucleico são as principais abordagens na fase inicial, enquanto o teste sorológico é o principal método na fase posterior.
3.3 Avaliação e Seleção do Desempenho do Método de Teste
Segundo a OMS, uma avaliação sistemática do desempenho e dos cenários aplicáveis de vários testes de dengue é apresentada a seguir:
| Método de teste | Alvo | Janela de tempo | Cenário de aplicação principal | Considerações |
| Teste de ácido nucleico | RNA viral | 1 a 7 dias após o início | Confirmação precoce, identificação do sorotipo | Método padrão ouro; requer equipamentos de laboratório especializados e conhecimento técnico. |
| Teste de antígeno NS1 | Proteína não estrutural | 1 a 3 dias após o início | triagem rápida precoce | Disponível em formato de teste de diagnóstico rápido (TDR), adequado para ambientes com recursos limitados. |
| Teste de anticorpos IgM | Anticorpos IgM específicos | ≥4 dias após o início | Diagnóstico de infecção recente | Uma única amostra de soro apenas sugere uma possível infecção recente; a soroconversão é necessária para confirmação. |
| Teste de anticorpos IgG | Anticorpos IgG específicos | Convalescente/infecção prévia | Investigação epidemiológica, avaliação do estado de imunidade | Uma única amostra de soro não é adequada para o diagnóstico de dengue aguda. |
| Teste combinado (NS1+IgM/IgG) | Antígeno + Anticorpos | Curso completo da doença | Diagnóstico abrangente da infecção por dengue | Atualmente, o formato de teste rápido de diagnóstico (TRD) com melhor desempenho para o diagnóstico da dengue é o mais indicado. |
| NGS | RNA viral | 1 a 7 dias após o início | Vigilância genômica viral | Requer equipamentos de sequenciamento especializados e capacidades de análise bioinformática. |
4 Recomendações de Produtos para Detecção de Dengue por Macro e Micro-Teste, por Cenário
Para apoiar a prevenção e o controle da dengue, a Macro & Micro-Test oferece um portfólio integrado de diagnósticos que abrange triagem rápida, confirmação molecular e vigilância genômica, atendendo às necessidades em diferentes estágios de gerenciamento de surtos.
4.1 Cenário 1: Triagem rápida e vigilância direcionada
Aplicável a clínicas de febre, unidades básicas de saúde, triagem comunitária em casos de surto e quarentena em portos/fronteiras.
Teste rápido de antígeno NS1 do vírus da dengue: detecta infecção precoce (1 a 3 dias após o início dos sintomas) com resultados em 15 minutos para triagem rápida.
Teste de anticorpos IgM/IgG contra o vírus da dengue: distingue infecções primárias de secundárias para avaliar o risco de doença grave.
Teste rápido combinado de antígeno NS1 do vírus da dengue + IgM/IgG: detecta simultaneamente antígeno e anticorpos para diagnóstico completo da doença.
Teste de anticorpos IgM/IgG para o vírus Chikungunya: Permite o diagnóstico diferencial com a dengue para identificar patógenos com precisão.
4.2 Cenário 2: Diagnóstico de Precisão e Resposta a Emergências
Kit de Detecção de Ácido Nucleico do Vírus da Dengue I/II/III/IV: Detecta e diferencia 4 sorotipos (limite de detecção de 500 cópias/mL) para rastreamento de surtos.
Kit de PCR para vírus da dengue liofilizado: Transportável à temperatura ambiente, adequado para áreas com recursos limitados e surtos repentinos.
Kit de PCR em tempo real multiplex para dengue/zika/chikungunya: detecta simultaneamente 3 arbovírus para um diagnóstico diferencial eficiente em surtos complexos.

Todos os reagentes acima são compatíveis com o sistema totalmente automatizado AIO 800, do início ao fim, reduzindo a operação manual e a contaminação cruzada, além de melhorar a eficiência e a biossegurança.
4.3 Cenário 3: Vigilância Genômica e Análise de Linhagem Viral
Aplicável a laboratórios nacionais de referência e instituições de pesquisa em saúde pública, em consonância com o posicionamento da OMS sobre NGS.
As soluções de vigilância genômica da Macro & Micro-Test oferecem suporte ao sequenciamento de genomas completos para rastreamento viral, elucidação da cadeia de transmissão, monitoramento de variantes e ajuste de estratégias de vacinação. Elas são compatíveis com fluxos de trabalho manuais e automatizados, melhorando a produtividade e a reprodutibilidade, permitindo que os laboratórios evoluam de testes de rotina para vigilância avançada, em consonância com a ênfase da OMS no fortalecimento do monitoramento da evolução viral.

4.4 Valor das Soluções Integradas
A Macro & Micro-Test oferece soluções completas de diagnóstico para a detecção de arbovírus, dando suporte a cada etapa do gerenciamento de surtos: ferramentas de triagem rápida para ambientes de saúde na linha de frente, confirmação molecular para diagnóstico de precisão e recursos de análise de genoma completo para vigilância epidemiológica. Com ensaios de alto desempenho, fluxos de trabalho flexíveis e plataformas prontas para automação, essas soluções capacitam laboratórios e sistemas de saúde pública a fortalecer a preparação e a resposta a ameaças arbovirais emergentes em todo o mundo.
Referências
[1] Organização Mundial da Saúde. Testes laboratoriais para o vírus da dengue: orientações provisórias, abril de 2025. Genebra: Organização Mundial da Saúde; 2025.
[2] Grupo Consultivo Técnico da Iniciativa Global contra Arbovírus da OMS. Fortalecimento da preparação e resposta globais às ameaças de doenças arbovirais: um apelo à ação. Lancet Infect Dis. 2026;26(1):15-17.
[3] The Lancet Microbe. Superando o dilema do diagnóstico da dengue. Lancet Microbe. 2025;6(7):101190.
Data da publicação: 20 de março de 2026