Um estudo recente publicado emMicrobiomaRealizou-se uma análise metagenômica viral em 846 pequenos mamíferos selvagens — incluindo morcegos, roedores e musaranhos — coletados em Serra Leoa, África Ocidental. O estudo identificou um total de 39 vírus de RNA associados a mamíferos, sendo 26 vírus novos e 13 já conhecidos. Entre eles, a família Paramyxoviridae apresentou a maior diversidade, enquanto os roedores abrigaram o maior número de espécies virais (n = 26).
A avaliação do risco zoonótico revelou três vírus zoonóticos conhecidos — vírus da encefalomiocardite, vírus de Lassa e Rocahepevirus sp. — bem como três vírus com potencial risco de transmissão: vírus Melian, vírus da hepatite de roedores e Hunnivirus A. Notavelmente, entre os vírus recém-identificados, o Bat ledantevirus 2 apresentou a relação filogenética mais próxima com o vírus Le Dantec, que infecta humanos. A análise sorológica detectou ainda anticorpos neutralizantes contra esse vírus em 2,8% dos residentes locais, sugerindo exposição humana prévia, provavelmente não detectada.
Essas descobertas destacam a presença de um reservatório viral substancial, predominantemente de roedores, na África Ocidental e ressaltam a importância crucial de estratégias integradas de vigilância na interface humano-animal. A combinação da triagem metagenômica com a validação sorológica fornece uma estrutura robusta para a identificação de vírus com potencial zoonótico e de transmissão intercelular.

Na última década, mais de 60% das doenças infecciosas emergentes em humanos tiveram origem em reservatórios animais, sendo morcegos, roedores e musaranhos reconhecidos como hospedeiros-chave de vírus zoonóticos. A África é amplamente considerada um foco de doenças zoonóticas. Por exemplo, Serra Leoa registrou mais de 28.000 casos durante o surto de Ebola de 2014–2016.
Apesar da significativa carga de doenças zoonóticas nesta região, a diversidade e a distribuição de vírus em pequenos mamíferos selvagens permanecem insuficientemente caracterizadas. Para preencher essa lacuna, pesquisadores realizaram uma análise sistemática do viroma de 846 pequenos mamíferos selvagens capturados em três locais em Serra Leoa entre 2018 e 2023. O estudo teve como objetivo caracterizar a diversidade viral, identificar candidatos com potencial de transmissão entre espécies, avaliar o risco zoonótico e gerar evidências para apoiar sistemas de alerta precoce para doenças infecciosas emergentes.

Métodos Essenciais
O estudo aplicou um fluxo de trabalho abrangente de metagenômica viral:
- Processamento de amostras:Tecidos do coração, fígado, baço, pulmão e rim foram coletados, agrupados, homogeneizados e submetidos à extração de RNA total.
- Sequenciamento e montagem:A depleção de RNA ribossômico foi realizada antes da construção da biblioteca, seguida por sequenciamento de alto rendimento usando a plataforma Illumina NovaSeq 6000. Os contigs virais foram montados de novo.
- Identificação do vírus:Os vírus foram identificados com base no alinhamento do gene da RNA polimerase dependente de RNA (RdRp). Apenas os vírus associados a vertebrados foram mantidos, excluindo vírus bacterianos, fúngicos e de plantas.
- Análise bioinformática:Foram realizadas reconstruções filogenéticas, análises de recombinação, modelagem de redes de transmissão entre espécies e avaliação de risco zoonótico.
- Validação sorológica:Um ensaio de neutralização de pseudovírus baseado em VSV foi desenvolvido para o ledantevírus 2 de morcego. Anticorpos neutralizantes foram detectados em 2,8% dos soros humanos, fornecendo evidências de potencial transmissão zoonótica.
EstudarResultados
1. Descoberta e Diversidade Viral
Este estudo realizou análises de sequenciamento transcriptômico em 846 animais selvagens coletados em Serra Leoa, incluindo roedores, morcegos e musaranhos. Com base nas sequências completas do gene da RNA polimerase dependente de RNA (RdRp), foram identificados 39 vírus de RNA associados a mamíferos, sendo 13 vírus já conhecidos e 26 novos vírus.
Em termos de composição viral, a família Paramyxoviridae apresentou o maior nível de diversidade entre as três ordens de hospedeiros, seguida por Astroviridae e Picornaviridae. Quanto à distribuição dos hospedeiros, os roedores contribuíram com a maior diversidade viral, abrigando um total de 26 espécies de vírus, o que indica seu papel proeminente como reservatórios de diversidade viral na região.
2. Risco zoonótico
A avaliação do risco zoonótico identificou três vírus zoonóticos conhecidos: o vírus da encefalomiocardite, o vírus de Lassa e espécies de Rocahepevirus. Além disso, três vírus — o vírus Melian, o vírus da hepatite de roedores e o Hunnivirus A — foram identificados como tendo potencial risco de transmissão intercelular.
Entre os 26 vírus recém-descobertos, quatro apresentaram alto potencial zoonótico com base em características filogenéticas e genômicas. Notavelmente, o Bat ledantevirus 2 demonstrou a relação filogenética mais próxima com o vírus Le Dantec, conhecido por infectar humanos.
Investigações sorológicas subsequentes corroboraram essa descoberta, uma vez que anticorpos neutralizantes contra o Ledantevírus 2 de morcego foram detectados em 2,8% dos soros de moradores locais. Esse resultado sugere que infecções não reconhecidas ou assintomáticas podem já ter ocorrido na população humana, destacando uma possível via de transmissão zoonótica até então desconhecida.
3. Dinâmica de transmissão entre espécies
A análise de transmissão entre espécies demonstrou que os roedores ocupam uma posição central na rede de compartilhamento viral, atuando como nós-chave que facilitam a troca viral entre espécies hospedeiras. Um total de 15 vírus foram identificados como tendo potencial para transmissão entre espécies.
Análises adicionais dos padrões de transmissão entre ordens indicaram que o compartilhamento viral ocorreu com mais frequência entre hospedeiros da mesma ordem taxonômica, sugerindo que o parentesco entre os hospedeiros desempenha um papel importante na dinâmica de transmissão. Em contraste, os morcegos apresentaram uma capacidade relativamente menor de transmissão entre ordens.
É importante destacar que foram observadas evidências de expansão da gama de hospedeiros em certos vírus. Por exemplo, o vírus Melian, que antes era considerado específico de musaranhos, também foi detectado em roedores neste estudo, indicando uma possível mudança na adaptabilidade do hospedeiro e um risco aumentado de transmissão mais ampla.
Conclusões e implicações para a saúde pública
- Alta diversidade do viroma em pequenos mamíferos selvagens:A descoberta de 39 vírus de RNA, incluindo 26 novas espécies, revela um grande reservatório viral na região e relata, pela primeira vez, novos vírus com alto potencial zoonótico (por exemplo, o ledantevírus 2 de morcego).
- Roedores como alvos prioritários de vigilância:Os roedores atuam como centros essenciais de transmissão viral e carregam a maior diversidade viral, representando o maior risco de disseminação para outros vírus.
- Necessidade de estratégias de vigilância integradas:Os resultados apoiam a priorização de roedores em programas de vigilância ativa e a implementação de abordagens integradas que combinem metagenômica, sorologia e monitoramento ecológico em interfaces entre humanos e animais selvagens.
De modo geral, este estudo fornece evidências cruciais para apoiar sistemas de alerta precoce e estruturas de avaliação de risco para doenças zoonóticas emergentes, reforçando a importância da vigilância proativa em regiões de alto risco.
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Data da publicação: 23/03/2026

